Uma produção musical Passo a passo

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Produção Musical

Muitas vezes quando começamos a lidar com o mundo do Audio de da Produção Musical imaginamos o que acontece em cada etapa desse processo desde a Criação de um arranjo ate a finalização deste trabalho,que é a Masterização. Vejamos como isso acontece.


Olá a todos, eu sou o Luã Linhares, trabalho com produção musical e sou membro da banda SUSPENSE. Recentemente lançamos um clipe de música autoral inspirada na série Stranger Things. Vou contar um pouco sobre processo de produção da nossa música, que durou mais ou menos 2 meses, e foi cheio de idas e vindas. Assista AQUI o clipe desta música:


Saiba como foi desenvolvido este trabalho:

 

Composição:
Eu já estava com a composição pronta há um certo tempo, mas ainda não tinha letra. Foi quando eu assisti a série da Netflix “Stranger Things” que eu pensei: “É isso!”, e aí a inspiração veio e escrevi a letra em um dia. Eu compus a música no teclado, e pra mim o ‘grande lance’ da composição é que ela era na tonalidade de Dm (depois baixei pra C#m por causa da voz), e ficava um tempão tocando acordes sem o baixo fazer a nota D, que seria a ‘resolução’, o descanso naquela tonalidade. O acorde de Dm propriamente dito só acontece aos 2:08 de música. A música é um rock progressivo, e eu divido a composição em 5 partes: o início, a parte viajada do arpeggiator, os solos, o retorno a uma parte similar ao início, e o final (que eu divido em 2 partes, a “trágica” e a “feliz”).

Gravação:
Como queríamos lançar a música o mais rápido possível pra aproveitar a ‘onda’ da série, o processo de criação do arranjo e da gravação já foram acontecendo ao mesmo tempo, no meu Home Studio. As tracks guia dos instrumentos já foram gravadas ‘valendo’. Para o processo todo usei a DAW Reaper, que é a minha favorita, principalmente pela velocidade com que eu consigo colocar minhas ideias em prática.

Teclados: Começamos a gravação pelo Piano, que é o instrumento condutor da música. Ele foi gravado via MIDI, com um controlador, usando o VSTi Addictive Keys, da XLN Audio. Para o órgão foi usado o instrumento virtual VB3. Para o Arpeggiator eu usei o Refx Nexus 2. E os strings foram gravados em áudio com o som do meu teclado, um Roland Juno-D. No final da música tem um som de Glockenspiel, da library Spitfire Percussion Redux, para Kontakt. Mais pro final também, na parte ‘trágica’, tem um coral da library Soundiron Venus.

Bateria: A bateria guia foi gravada usando o EzDrummer 2, com um controlador. Depois fui editando, colocando as coisas no tempo, e ajustando os velocities das notas pra soar mais natural, sem parecer que o chimbau está sendo marretado sem dinâmica nenhuma, por exemplo. Os membros da banda ajudaram nessa percepção de onde não estava soando realista, pra eu fazer os ajustes. Nas partes onde tem rufos, eu peguei um sampler de rufo e misturei ali no meio. Como queríamos lançar a música rapidamente, e a bateria programada já estava soando legal e encaixando bem, optamos por usar ela mesmo, em vez de regravar a bateria acústica.

Baixo: O baixo gravamos em linha, direto na minha interface M-Audio Fast Track Ultra. Usei o Waves GTR pra colocar um simulador de Amp e um pedal de overdrive.

Guitarras:

projeto-separado-de-gravacao-das-guitarras

Clique na imagem para ampliar

Para gravar as guitarras solo, abri uma seção separada no Reaper, onde importei só uma track com o LR da música inteira sem as guitarras. Depois de escolher os takes eu exportei uma track com as guitarras solo e importei dentro do projeto principal. Isso me ajudou a aliviar o processamento do PC, e a deixar a seção principal mais clean. Para as guitarras usamos o plugin simulador de Amp NRR-1, da Ignite Audio (Freeware), e um Impulse Response de cabinet, aberto dentro do NadIR, também da Ignite Audio e freeware.
Para as guitarras base, usamos no lado esquerdo o plugin de amp do Emissary, e no lado direito o Toneforge Menace. Coloquei um Impulse Response de cabinet em cada, e depois no grupo com as duas guitarras coloquei mais um Impulse Response, porque estava achando o som muito estridente ainda.

Voz: a voz eu gravei dentro de um quartinho, usando um mic Shure SM58. Gravei tudo em um projeto separado também. Os backing vocals gravei no seguinte esquema: 3 gravações pra cada naipe. Então tem trechos que tem 3 gravações de uma mesma voz mais grave, 3 médias e 3 agudas, além do vocal principal. Essas 3 tracks de cada voz eu jogo no pan, uma 100%L, uma no centro e uma 100%R. O backing do centro eu canto um pouco mais sussurrado, pra ter um ‘ar’ que mistura mais as vozes.

FX: Tem também alguns efeitos sonoros ocasionais, como risers de white noise (samplers em WAV), um loop de pandeirola (EzDrummer Latin Percussion) e sons de ‘eletricidade’, que é de uma library de design sonoro muito interessante chamada Hybrid Project Bravo.

Edição:
Pra alinhar a guitarra e o baixo no tempo, uso a técnica de Slip Editing, que é basicamente cortar e arrastar. Em vez de usar crossfades, costumo usar a opção de Auto-fades do Reaper. Quando eu dou split em um item, já são criados automaticamente um fade-in e um fade-out nas pontas, e aí eu arrasto a waveform dentro do item (segurando Alt) pra colocar o transiente alinhado com a grid.
Na edição das vozes, depois de gravar vários takes, fui fazendo a compilação dos ‘melhores momentos’, cortando cada trechinho para montar as tracks finais, incluindo uma dobra do lead vocal. Afinei tudo no Melodyne, e alinhei os backing vocals com o vocal principal usando a ferramenta de Stretch Markers do Reaper (semelhante ao Elastic Audio). Uma coisa que eu faço no Melodyne pra deixar a afinação mais natural é separar as consoantes como S, Z, F, e voltar elas para o original. Também dou uma abaixada nos S no próprio Melodyne, fazendo um deesser manual.

Mixagem:
Uma das coisas que considero mais importantes no resultado das minhas mixagens são as automações. Eu costumo pilotar o fader de volume de quase todas as tracks, ao longo da música inteira. Isso me permite enfatizar certas emoções na música, dando destaques a certos instrumentos na hora certa. Por exemplo, quando tem uma virada de bateria, eu aumento um pouco o volume da batera e diminuo do resto. Isso me permite também criar contrastes de dinâmica da música, aumentando um pouco o volume de cada coisa quando eu quero que a música cresça mais. Acho que o único instrumento que eu não fiz essa pilotagem de volume foi o baixo.
Outra coisa importante também é o uso de músicas de referência. Um dos testes que eu faço pra ver se a mix está soando bem é o famoso “teste do carro”. Se a música soa bem no carro, já é uma grande conquista. E escolhi como referência uma banda que eu ouvi uma vez no carro e pensei “putz, isso soa bem demais!”, que é a banda No Doubt. Escolhi também uma música da Katy Perry, que gosto muito da sonoridade e de como traduz bem em todos os meios, e uma do Blind Guardian, que foi a minha maior influência nessa composição específica. Essas referências eu só escutava de vez em quando, e fazia a troca usando o plugin Magic AB, que é extremamente útil para esse fim.
Uma das coisa que eu percebi com as referências por exemplo, é que a música do No Doubt tinha muito ataque na bateria. Tentei me aproximar desse som de bateria usando plugins que aumentassem os transientes (Waves TransX), e também um Clipper (JST Clip). Usar clippers nas tracks de batera é um recurso bem interessante pra adquirir mais agressividade no som. Eles funcionam mais ou menos como um limiter, só que em vez de simplesmente abaixar o volume que excede o limite, o clipper gera uma saturação para compensar a diminuição do volume. Então você não percebe que o som está sendo esmagado, de forma que ele se torna mais agressivo sem perda de volume aparente. Essa técnica eu aprendi com o Joey Sturgis, que é um produtor conhecido por trabalhos com bandas de metal, e é o próprio fabricante do plugin de clipper que eu usei. Pra deixar o som da bateria mais “crocante” eu também usei EQ pra dar uma limpada em algumas frequências e dar uma enfatizada nos ataques. Apesar de a batera ser do EzDrummer, eu mandei o output de cada peça pra uma track, e renderizei pra trabalhar o áudio de cada peça como se fosse a gravação de uma bateria real mesmo. Toda essa ênfase nos transientes da batera acabaram deixando ela meio aguda e magra demais, o que eu compensei com plugins que adicionam frequências graves de forma agradável, como o Rbass e o Decapitator.
O que mais deu trabalho na mixagem foi a voz. E confesso que até depois de pronto, não fiquei totalmente satisfeito com o som da voz. A gravação foi feita dentro de um quartinho que tinha um pouco de ressonância “boxy”, que acabou impregnando na track toda. E o SM58 não é dos microfones mais brilhantes, mas eu achei a sonoridade dele melhor nessa música do que o meu microfone condensador. O grande problema é que esse som abafado e ‘boxy’ não era uniforme, ficava indo e voltando dependendo da frase na música. A melhor solução que eu encontrei portanto foi picotar a track vocal inteira, e em cada trecho eu usei uma configuração de EQ diferente. O Reaper permite fazer isso, colocar plugins diferentes em cada item (clip). Usei vários plugins na track também, cada um com pequenos ajustes de EQ e de compressão. Usei também um deesser, e o Decapitator, que eu gosto de usar pra trazer um pouco de saturação na faixa de frequências que eu escolho com o knob “Tone”. Na voz há também um send pra uma track auxiliar com o H-Delay, que está programado com o tempo de 1/4, e com filtros de agudo e grave, deixando o som do delay mais estilo ‘telefone’. Mandei a voz principal também para 2 tracks com reverbs (Plate e Hall, ambos do Valhalla VintageVerb), mas é bem pouco, a ambiência vem mais do delay mesmo. Há também um Slap Delay inserido na track de vocal, usando o plugin CLA Vocal.
Eu costumo trabalhar com pastas que agrupam as tracks, para tratar várias tracks de uma vez. Então tenho uma track “All Vocals”, uma “All Guitars”, por exemplo, onde eu faço ajustes gerais. Geralmente uso o limiter L1 nesses grupos, o que ajuda a deixar o volume ‘pipocando’ menos, as coisas ficam mais controladas e soando mais suave. Costumo usar nesses grupos também o plugin SideWidener, da JST, quando eu quero abrir um pouco a imagem stereo. Esse plugin é bastante útil também quando eu tenho uma track mono de guitarra que eu não quero que fique exatamente no centro. Então eu abro um pouco a imagem da guitarra, e ela fica posicionada na região central, só que em stereo, deixando o centro um pouco mais livre pra abrir espaço pra voz, caixa e baixo.
Nas tracks em geral eu fiz basicamente ajustes de EQ e compressão, limpando frequências indesejáveis e controlando o volume. Os plugins mais usados foram ReaEQ, CLA 76, ReaComp, SSLChannel e Decapitator.
Nesse projeto eu fiz a masterização junto com a mixagem. Uma coisa que eu gosto muito de usar na master são os compressores multibanda. Nessa música usei tanto o LinMB quanto o Pro-MB na master track. Os compressores multibanda ajudam a equilibrar as frequências da música, e em geral as minhas gravações tendem a ter um som muito médio-grave, e os compressores MB ajudam a controlar isso, deixar o som mais ‘aberto’. Na master há também um simulador de fita (Kramer Tape), um filtro de subgraves desnecessários e o MaxxBass, que é um plugin que gera harmônicos que fazem os instrumentos graves aparecem mais. O MaxxBass é ótimo pra fazer o baixo pintar melhor em caixinhas pequenas, por exemplo. E por último, no master bus, tem um Clipper da T-Racks, e o limiter Pro-L, da Fabfilter, pra deixar o volume o mais alto possível sem perder muito da dinâmica nem soar ‘esmagado’.
A cada mudança mais significativa no projeto, eu dava um “Save As”, pra manter um backup das decisões anteriores, enquanto seguia em frente na mixagem. No final da produção, eu fiquei com 22 arquivos de projeto, o que dá pra ter uma noção do tanto que eu fiquei matutando, indo e voltando nessa música, hehe. Espero que vocês tenham gostado do resultado final, e que essa descrição seja útil para você que faz produções também! Qualquer dúvida pode me achar no facebook: https://www.facebook.com/lua.linhares/.

Luã Linhares

luaLuã Linhares mora em Belo Horizonte. 
É músico há mais de 15 anos e trabalha com Produção Musical á 6 anos. 
É membro das bandas SUSPENSE e Nem Secos.                                                 
Fanpage banda SUSPENSE: https://www.facebook.com/SuspenseBand/
Página oficial SUSPENSE: http://bandasuspense.com.br

 


 

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